quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Galway - A nossa queridinha!


Galway é uma cidadezinha charmosa que fica a 2,5 horas de Dublin na Irlanda. Ela é quase perfeita. Cidade movimentada com muitos bares, artistas de rua, tem mar, museu, escolas e parques infantis por todo lado. É super estruturada e com carinha de interior, ar puro, gente sorridente e sem trânsito. Uma lindeza só. 

Foi lá nossa primeira parada na Irlanda, onde encontramos minha prima que estava terminando seu intercâmbio. Ia fazer 1 ano que não nos víamos e ela não é só uma prima, é aquela prima irmã. A mãe dela que é minha tia, é também minha madrinha. Meu pai, é padrinho de crisma do irmão dela, minha mãe é madrinha de crisma dela, ela seria minha madrinha de crisma (mas como não sou católica, não foi rsrs), então o convite foi refeito quando eu engravidei, e ela é madrinha da Cami, e eu assisti como doula o parto da irmã dela. <3 Sim, uma família bem unida. Dá pra imaginar a saudade e o quanto foi emocionante o reencontro né?

Abraços e choros à parte, ela nos ajudou muito até chegarmos em Galway, e vamos repassar algumas dicas aqui. 

Como queríamos ter um tempinho com ela antes de ir para nosso workaway, alugamos um apto para ficar na cidade, ela encontrou um super apartamento (sala, cozinha, 1 suíte + 1 quarto e 1 banheiro) bem no centro com uma vista linda e um preço melhor que de hostel e já nos recebeu com cerveja, vê se não é pra amar? rsrs



Ficamos até muito tarde conversando e no dia seguinte acordamos também muito tarde e bem atrapalhados com o fuso o que nos impediu de aproveitar bem a linda Galway.

Saímos então para conhecer a cidade. Passamos numa espécie de lanchonete e compramos um sanduba gigante que teve que ser comido em 2 refeições e ainda acompanhava 1 coca ou água por 3 euros. Mas calma que isso é a exceção da cidade, nada é barato por lá, sério rsrs. Caminhamos seguindo o rio Corrib e sentamos na Spanish Arch para fazer nosso lanche junto dos milhares de corvos :). Uma coisa que é bem comum na Irlanda é comprar comida e comer nos parques, praias e lagos, para aproveitar o sol que não é rotina nem no verão...

Spanish Arch

Depois de comer fomos conhecer o museu de Galway, e a história local é fantástica.

Galway inicialmente, era uma vila de pescadores e mais tarde, em 1232 se tornou uma cidade murada, após o território ser capturado pela liderança Anglo Normandos por Richard De Burgo.
Algumas seções muradas da época Medieval que podem ser vistos hoje perto da Spanish Arch, foram construídos por volta de 1270.  Em 1396 Richard II, transferiu os poderes da cidade para 14 famílias de comerciantes, conhecidos localmente como as 14 tribos de Galway. 

O museu de Galway fica no Spanish Arch, que foi construído em 1584 para proteger o cais. Seu nome é Arco da Espanha, justamente porque muitas vezes os navios espanhóis ancoravam ali para se proteger.





O que fazer em Galway além de ir ao museu?

Se perder pelas ruas já é uma atração, já que o que mais tem em Galway é artista de rua, vale a pena parar e apreciar.

Se você estiver sem filhos, PUB a noite. Acho até que tem PUB CRAWL (aquele esquema que você paga um valor único e vai passando de bar em bar bebendo de graça). Nós estávamos com a Camille então fomos apenas de dia, mas ao que parece é a noite que fica imperdível.
Quem nunca bebeu uma Guinness é legal experimentar, mas pra mim, essas são as melhores...

Para deixar claro, no copo da Camille tem água. rsrs


Aconselho também visitar a catedral. A arquitetura da igreja é fantástica. E o melhor, a entrada é free e você pode fazer uma contribuição se desejar.








E claro, a universidade de Galway que também é linda. 




Aliás, tudo lá é lindo. Galway parece ter saído de um conto de fadas - só que com chuva rsrs

Se vai com crianças, você encontra parques por perto. Não vou saber ensinar o trajeto, mas nada que um mapa não resolva :)



Além disso, a biblioteca de Galway é parada obrigatória. Tem uma seção enorme para crianças com tudo ao alcance delas para que elas mesmas decidam o que querem ler/ouvir.


Vale também conhecer Salthill. Pertinho da Spanish Arch e dá pra ir caminhando sentindo a brisa, andar pelas areias grossas (rsrs) e congelar os pés se estiver disposto. No fim, tem um parque de diversões que acabamos não conhecendo porque encontramos um playground no caminho e a Camille não quis mais sair dali.



Ahh os playgrounds, eles merecem um post só pra eles porque na Irlanda, brincadeira é coisa séria. Até adulto se diverte!

Você também pode fazer os famosos passeios que levam ao Cliffs of Moher, Connemara National Park e Aran Islands. Não fizemos nenhum desses por falta de tempo E grana rsrs, e como ficaríamos bastante tempo na Irlanda, priorizamos passeios gratuitos. Mas se você pode, acho que vale super a pena.

O que você não pode esquecer:

  • Na Irlanda chove muito, o tempo todo mesmo no verão, então venha com uma capa de chuva ou casaco impermeável (se for verão, não precisa ser casaco grosso), se não tiver, vale a pena deixar para comprar nos brechós da Irlanda que são absurdamente baratos mesmo pra quem ganha em real, coisa de 3 a 10 euros no máximo.

  • O verão - entre junho a setembro - é a melhor época para conhecer a Irlanda. Se o clima é maluco como eu vi no verão, realmente não desejo conhecê-lo no inverno rsrs. Além disso, no verão amanhece as 05:00 e escurece entre 22:00 e 23:00 da noite. Isso é uma delícia.

  • Para chegar em Galway do aeroporto de Dublin é muito fácil, ao passar pela porta de saída você já encontra a parada de ônibus que fica à sua direita, basta confirmar com o motorista e embarcar. Os ônibus que vão para Galway são das empresas Bus Éireann, Citylink e Go Bus e custam em média 17 euros. Nós usamos a Go bus que já estava na parada quando saímos do aeroporto e pelo menos nessa, sabemos que tem wifi.


Galway é linda e eu realmente acho que é uma cidade que não dá pra deixar de fora quando se vem para a Irlanda. O clima é maluco mas é gostoso e Galway é a nossa queridinha <3



Fabio com a Ca no sling e a dinda Ju
Essas são as charmosas casinhas dos pescadores, passando a Spanish Arch
Vista do museu para a rua que leva a Salthill
Outra igreja que conhecemos, também muito bonita.




Desculpem as fotos não muito boas, em Galway usamos praticamente só o celular para fotos :(
E é isso, sobre Galway.

Agora cola na gente, beijos, beijos e beijos! ;)


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Não dê o peixe, ensine a pescar"... Quando a hipocrisia ganha voz.

Nos últimos dias têm aparecido na minha timeline um texto falando sobre as pessoas que não podem largar tudo para viajar o mundo e como isso os deixa chateados.

Decidi então compartilhar um pouco da nossa história de forma bem resumida e como tudo começou para depois mostrar meu ponto de vista.

Eu, Gabriela, sou do interior de Santa Catarina, uma cidadezinha chamada Capivari de Baixo. Meu avô teve uma das primeiras padarias da cidade, talvez a primeira. Posso dizer que a minha família viveu muito bem por muito tempo.
Meus pais também tinham sua própria padaria, mas decidiram vender depois de anos porque trabalhavam de domingo a domingo. Cidade do interior, todo mundo se conhece um pouco, a pessoa pagou em cheque e quando meu pai foi depositar viu que não tinha fundo e o cara já tinha sumido.

Sim, tudo foi perdido. Eles decidiram, então, se mudar para Floripa para recomeçar do zero e foi tudo muito sofrido. Na época eu não sabia, mas meus pais mandavam eu e meu irmão brincar com os vizinhos depois do almoço pra gente ter o que comer no café da tarde.

Antes disso meus pais tinham uma vida muito legal, e isso sem dúvidas foi fundamental para que tenham conseguido se reerguer em mais ou menos 2 anos.

Eles tinham muitos amigos que os ajudaram a conseguir emprego. Minha mãe foi trabalhar em um centro de estética e meu pai pegava o ônibus com chaves de fenda (e sei lá mais que tipo de chave rs) numa sacolinha plástica e se oferecia para consertar coisas, já que tinha formação de eletricista. Os amigos não ajudaram emprestando dinheiro, mas sim indicando e contratando os serviços, comprando os cosméticos da minha mãe, cortando o cabelo com ela. Gente amiga de verdade e que se dispunha a ajudar.

Anos depois, com a vida mais estabilizada, meu pai caiu da escada enquanto trabalhava e quebrou o joelho. Emergência, foi atendido rapidamente, mas precisava de cirurgia urgente e pelo SUS iria demorar muito.

(Quero deixar claro aqui minha completa admiração pelo SUS, que infelizmente não dá conta de tudo mas ainda assim é lindo e salva a vida de muitas pessoas.)

Meus pais não tinham como pagar cirurgia e a família, por mais que quisesse, não tinha como ajudar. Foi aí entraram os amigos novamente: eles pagaram a cirurgia do meu pai.

Depois da cirurgia ele deveria ficar de repouso, mas aí como entraria dinheiro em casa? Meu pai, então, convidou um amigo eletricista para trabalhar com ele, que já tinha uma clientela formada. Meu pai fazia a parte de contato com os clientes, financeiro e tudo mais e o amigo com a mão de obra. Funcionou por um tempo, até que o amigo decidiu trabalhar como autônomo e meu pai precisou voltar a trabalhar também fazendo instalações, mesmo com a proibição do médico (afinal, a gente precisava comer né?).

Nessa época eu já namorava o Fabio e havíamos decidido nos casar. O pai dele é pedreiro, a mãe empregada doméstica e o tempo de aperto que minha família passou não chega nem perto do que eles passaram.

Moravam em cinco pessoas num pedacinho de casa - um rancho, como eles falam - um quadradinho de menos de 25m² onde era cozinha e quarto de todos. Nada mais. Fabio trabalhou desde criança, assim como seus irmãos, fazendo entrega de salgadinhos de bicicleta, capinando e estudando. Posso dizer que eles tiveram sorte, pois apesar de todas as dificuldades, meus sogros sempre incentivaram muito os estudos.

Foi com o irmão mais velho do Fabio que a família começou a ter um pouco de conforto. Fez escola técnica pública e recebia ajuda de custo para transporte, e foi só por causa dessa ajuda de custo que ele pode estudar lá. Se formou, fez o projeto de uma casa e desse projeto, fez a casa que eles têm hoje. Com o dinheiro que ele ganhava ajudava a comprar comida, roupas para os irmãos e material para meu sogro fazer uma casa pra família. Hoje eles ainda passam perrengue, mas é não mais como antes.

Voltando à nossa história... Fabio e eu resolvemos casar (quanta burrice em dois jovens haha)
Não tínhamos dinheiro para nada, então meus pais, que tinham uma edícula no fundo do quintal, disseram que poderíamos reformar para morar ali. E foi o que fizemos. Fabio saiu da empresa onde trabalhava e com o FGTS conseguimos comprar algumas coisas para reforma da casa. Também ganhamos bastante coisa de amigos e família, como piso, telha, tinta e vidros. Meu sogro começou a reforma mas ficou doente e não pode terminar, e assim meus pais ajudaram pagando outro pedreiro. Mesmo assim faltou um pouco de dinheiro. Recorremos à minha avó e assim conseguimos terminar.

Durante esse tempo, além da reforma da casa estávamos também pagando o casamento, pois decidimos começar a pagar tudo um ano antes para não ficarmos tão endividados depois. Então eu engravidei. Sim, engravidei porque queríamos, porque achávamos que seria como brincar de boneca - quanta inocência!

Pra darmos conta de pagar tudo, o Fabio trabalhava com meu pai e eu trabalhava cuidando dos primos do Fabio de manhã e como vendedora de shopping das 16h às 22h - ou seja, minha jornada começava às 8h e terminava às 22h. Trabalhamos muito, muito mesmo, e passamos mais de um ano sem comprar absolutamente NADA para nós. Nosso foco era 100% a casa e o casamento.

Por sorte, ganhamos de presente quase todos os móveis e utensílios. Nossa casa era sala e cozinha conjugada, banheiro e um quarto. Não tínhamos cama e nem sofá rs.

Então passou o casamento e a Camille nasceu.

O nascimento de uma vida vem cheio de mistérios e novidades, nem sempre tão doce quanto nos contam. Acredito que uma nova alma chega pra trazer mudanças, e a transição sempre traz dor. A gente não se reconhece mais, nosso cabelo cai, nossas roupas não servem mais, eu até desaprendi a me maquiar. A gente não dorme, come a comida sempre fria e, além de todo o cansaço, sempre tem alguém com um conselho, pitaco e julgamento. Aí a gente precisa em meio a todo o caos, buscar força para ignorar os julgamentos e lutar pelo que acreditamos.

Ganhamos praticamente tudo para ela, mas ainda assim estava apertado demais. Quando ela tinha uns 4 meses a mãe do Fabio adoeceu e também teve que parar de trabalhar. Não tínhamos como pagar a cirurgia, então minha cunhada correu atrás no SUS e nos juntamos para comprar remédios e ajudar no que precisavam. Lembro que uma vez fomos lá e vimos que quase não tinha comida em casa (ambos trabalhavam sem carteira assinada, então quando ficaram doentes, ficaram também sem dinheiro nenhum). Eu e o Fábio, então, fizemos compras e levamos para eles. Claro que dessa forma faltou pra gente né? E meus pais então, compraram nossa comida naquele mês.

Um ano se passou e o Fabio recebeu uma proposta de emprego. Salário razoavelmente bom, uma empresa que ia abrir e prometia muito. Nossa vida começou a melhorar financeiramente. Resolvemos comprar um apartamento de 57m² na planta com entrega para 16 meses depois e entrada parcelada. Contratos assinados e por um erro da corretora o valor da entrada aumentou muuuuuito.

Tivemos, então, que pagar R$1.500,00 por mês de entrada por 16 meses. O Fabio ganhava R$ 2.400,00 e tudo apertou de novo. Nessa época eu estava começando a trabalhar como doula, com um projeto bacana e o Fabio me apoiou e me deixou com o tempo livre para que eu ficasse em casa com a Camille e desenvolvesse meu projeto. De R$ 2.400,00 pra R$ 1.500,00 não sobra muito né? E ainda tinha o carro com a prestação de R$300,00, portanto o salário era para comida e pronto.

Logo ofereceram ao Fabio a sociedade na empresa, já que os donos eram apenas investidores e não entendiam do ramo. A felicidade foi imensa pelo reconhecimento do trabalho e potencial dele. Ele começou a ganhar um pouco mais, não muito, já que ele ganharia no "lucro" da empresa, nessa mesma época pegamos as chaves do apartamento e a prestação diminuiu quase R$ 1.000,00. Foi um alívio muito grande e pudemos finalmente comprar roupas depois mais de um ano sem gastar em nada.

Apesar da boa renda, não estávamos felizes. Fabio trabalhava demais e estava sempre estressado, e apesar de todo o esforço o salário não aumentava, o lucro nunca veio e ele nunca foi sócio de fato, pois nada foi colocado em contrato. Então a "sociedade" não deu certo , foi dado ao Fabio um valor X pelo fim da sociedade, que era muito menor do que vocês possam imaginar... Mais frustração, decepção, tristeza.

Decidimos mudar de vida, tentar algo melhor para nós dois e para nossa filha. Pesquisamos muito e percebemos que para mudar precisaríamos colocar tudo a venda, e assim fizemos: carro, apartamento, móveis.

Estamos nos preparando para essa viagem DESDE 2014.

Nós não largamos tudo simplesmente para viajar o mundo. Temos um motivo, um propósito. Queremos encontrar um lar e estamos em busca disso. Nossas famílias não têm dinheiro e nós temos apenas o que conseguimos vender. Se tudo der errado, vamos ter que começar de novo, e eu não tenho medo disso porque sei que damos conta. Não somos como a maioria dos relatos que vocês veem por aí de gente que resolveu ter um ano sabático. Todo o dinheiro está contado. Temos o suficiente para emergências e nada mais.

Agora eu chego ao ponto em que queria chegar

Nossos pais ralaram pra caramba para nos criar e nós ralamos muito para ter nossas coisas e criar nossa filha, mas a diferença entre nós e outras pessoas que jogam seus relatos de "Como largar tudo e ser feliz" é que temos inteligência suficiente pra saber que recebemos muita ajuda e muitas oportunidades nos foram dadas. É verdade que nada cai do céu, que a gente tem que lutar pelo que quer, mas é importante reconhecer que pessoas lutam tanto quanto OU MAIS que nós e ainda assim não conseguem realizar seus sonhos.

Nossas famílias não têm dinheiro, mas nós ainda temos uma casa pra voltar caso precisemos. Ainda seremos acolhidos com amor e temos certeza que não faltará gente disposta a nos ajudar. Sim, porque somos pessoas de bem e trabalhadoras. Mas não é só isso que importa pra receber ajuda. Tem muita gente de bem e que trabalha pra caramba mas não tem as oportunidades que temos.

Meu cunhado provavelmente não teria uma formação se não existisse escola técnica publica e não recebesse ajuda de custo para se transportar até lá. E se ele não tivesse se formado, como estaria a família agora? Provavelmente trabalhando muito, como agora, mas ganhando muito menos, talvez ainda naquele mesmo ranchinho, e provavelmente Fabio também não teria tido a oportunidade de se formar.

Por isso eu entendo a gratidão dos meus sogros por ele. Ele quebrou o ciclo, ele deu o pontapé inicial. Por isso defendo os programas do governo, porque pessoas que precisam trabalhar desde criança não tem como competir com quem estuda em escolas boas e ainda pode pagar cursinho pré-vestibular.

No meu mundo ideal todo mundo realiza seus sonhos. No meu mundo ideal mulheres não sofrem violência doméstica, mulheres não são abandonadas diante de uma gravidez, mulheres não são obrigadas a ter um filho que não querem. Mulheres não são julgadas como boas ou más mães, mulheres não precisariam brigar por uma miséria de pensão enquanto o cara tá de bonitão na balada. No meu mundo ideal as mães teriam mais apoio, mais oportunidades e não precisariam ter que abandonar a faculdade, mas sabemos que não é assim no Brasil não é? Mulheres ganham menos, e mães têm mais dificuldade para conseguir emprego simplesmente por serem mães.

Eu lamento tanto que tantas pessoas tenham que trabalhar muito e com o que não gostam simplesmente para poder sobreviver. E lamento mais ainda que quando pessoas de bem e trabalhadoras ganham oportunidades apareçam discursinhos do tipo "não dê o peixe, ensine a pescar". Isso me irrita e muito. Ninguém consegue nada sem nenhuma ajuda, NINGUÉM. Pessoas falam isso porque gostam de dizer que tudo foi por esforço próprio, e não significa que não se esforcem mas direta ou indiretamente você sempre recebe ajuda. Indicação de emprego, bolsa na faculdade, subsídio dos pais e por aí vai.

Nosso país é desigual, tem gente passando fome e uma parte da população acredita que só é assim porque a outra parte não lutou o suficiente. Amo meu país, minha família, amigos, mas não quero viver em um lugar assim.

Nós definitivamente só estamos fazendo essa viagem porque temos um objetivo muito definido e principalmente, porque o lugar que talvez seja nosso lar tem passagens aéreas tão caras que sai mais barato viajar assim, pulando de galho em galho, parando em vários países.

A nossa ideia de fazer o blog é pra mostrar que não é preciso ter pai rico pra viajar, porque nós não temos. É preciso planejamento. Também não é preciso fazer uma viagem tão longa quanto a nossa. Queremos mostrar que é possível viajar gastando muito pouco.

Que tal nos seus dias de férias ir para uma cidade próxima e ficar numa casa legal com gente bacana compartilhando suas ideias, ajudando na manutenção da casa, sem precisar gastar com hospedagem e alimentação? Aprender a fazer tijolos, ensinar os filhos a colher frutas, a experimentar novos sabores. Dessa forma gastaria apenas com a passagem (que pode ser carro, trem, ônibus) e uma coisa ou outra que deseja comer na rua. Mas enquanto gasta com passagens, não está pagando as compras do mês, por exemplo.

Algumas pessoas têm a ideia de que viagem é aquela comum de ficar em hotel/hostel, caminhando horas na rua pra bater foto e gastar uma grana imensa em restaurantes e lojas. Nós não gostamos desse tipo de viagem, e se você é como a gente, que gosta mesmo é de uma boa conversa sem pressa e com uma cervejinha, experimente isso. Tem muitos lugares no Brasil dispostos a receber gente só pra ter companhia e alguma ajuda na casa, e é tão divertida essa troca. Faz bem pra alma.

Quando puderem, planejem, e vão. <3



Pai, mãe e irmão. 
Nós. 
Mãe e pai do Fabio.

Irmãos.
E nossos afilhados.
 Eles não são heróis e não tem super poderes. São reais, com suas fraquezas, defeitos, mas tem o melhor jeito de acolher do mundo, sabem abraçar e chorar junto e tem corações que transborda amor e cuidado.

"Não dê o peixe, ensine a pescar"... Quando a hipocrisia ganha voz.

Nos últimos dias têm aparecido na minha timeline um texto falando sobre as pessoas que não podem largar tudo para viajar o mundo e como isso os deixa chateados.

Decidi então compartilhar um pouco da nossa história de forma bem resumida e como tudo começou para depois mostrar meu ponto de vista.

Eu, Gabriela, sou do interior de Santa Catarina, uma cidadezinha chamada Capivari de Baixo. Meu avô teve uma das primeiras padarias da cidade, talvez a primeira. Posso dizer que a minha família viveu muito bem por muito tempo.
Meus pais também tinham sua própria padaria, mas decidiram vender depois de anos porque trabalhavam de domingo a domingo. Cidade do interior, todo mundo se conhece um pouco, a pessoa pagou em cheque e quando meu pai foi depositar viu que não tinha fundo e o cara já tinha sumido.

Sim, tudo foi perdido. Eles decidiram, então, se mudar para Floripa para recomeçar do zero e foi tudo muito sofrido. Na época eu não sabia, mas meus pais mandavam eu e meu irmão brincar com os vizinhos depois do almoço pra gente ter o que comer no café da tarde.

Antes disso meus pais tinham uma vida muito legal, e isso sem dúvidas foi fundamental para que tenham conseguido se reerguer em mais ou menos 2 anos.

Eles tinham muitos amigos que os ajudaram a conseguir emprego. Minha mãe foi trabalhar em um centro de estética e meu pai pegava o ônibus com chaves de fenda (e sei lá mais que tipo de chave rs) numa sacolinha plástica e se oferecia para consertar coisas, já que tinha formação de eletricista. Os amigos não ajudaram emprestando dinheiro, mas sim indicando e contratando os serviços, comprando os cosméticos da minha mãe, cortando o cabelo dela quando estava sem dinheiro. Gente amiga de verdade e que se dispunha a ajudar.

Anos depois, com a vida mais estabilizada, meu pai caiu da escada enquanto trabalhava e quebrou o joelho. Emergência, foi atendido rapidamente, mas precisava de cirurgia urgente e pelo SUS iria demorar muito.

(Quero deixar claro aqui minha completa admiração pelo SUS, que infelizmente não dá conta de tudo mas ainda assim é lindo e ajuda muitas pessoas.)

Meus pais não tinham como pagar cirurgia e a família, por mais que quisesse, não tinha como ajudar. Foi aí entraram os amigos novamente: eles pagaram a cirurgia do meu pai.

Depois da cirurgia ele deveria ficar de repouso, mas aí como entraria dinheiro em casa? Meu pai, então, convidou um amigo eletricista para trabalhar com ele ,que já tinha uma clientela formada. Meu pai fazia a parte de contato com os clientes, financeiro e tudo mais e o amigo com a mão de obra. Funcionou por um tempo, até que o amigo decidiu trabalhar como autônomo. e meu pai precisou voltar a trabalhar também fazendo instalações, mesmo com a proibição do médico (afinal, a gente precisava comer né?).

Nessa época eu já namorava o Fabio e havíamos decidido nos casar. O pai dele é pedreiro, a mãe empregada doméstica e o tempo de aperto que minha família passou não chega nem perto do que eles passaram.

Moravam em cinco pessoas num pedacinho de casa - um rancho, como eles falam - um quadradinho de menos de 25m² onde era cozinha e quarto de todos. Nada mais. Fabio trabalhou desde criança, assim como seus irmãos, fazendo entrega de salgadinhos de bicicleta, capinando e estudando. Posso dizer que eles tiveram sorte, pois apesar de todas as dificuldades, meus sogros sempre incentivaram muito os estudos.

Foi com o irmão mais velho do Fabio que a família começou a ter um pouco de conforto. Fez escola técnica pública e recebia ajuda de custo para transporte, e foi só por causa dessa ajuda de custo que ele pode estudar lá. Se formou, fez o projeto de uma casa e desse projeto, fez a casa que eles têm hoje. Com o dinheiro que ele ganhava ajudava a comprar comida, roupas para os irmãos e material para meu sogro fazer uma casa pra família. Hoje eles ainda passam perrengue, mas é não mais como antes.

Voltando à nossa história... Fabio e eu resolvemos casar (quanta burrice em dois jovens haha)
Não tínhamos dinheiro para nada, então meus pais, que tinham uma edícula no fundo do quintal, disseram que poderíamos reformar para morar ali. E foi o que fizemos. Fabio saiu da empresa onde trabalhava e com o FGTS conseguimos comprar algumas coisas para reforma da casa. Também ganhamos bastante coisa de amigos e família, como piso, telha, tinta e vidros. Meu sogro começou a reforma mas ficou doente e não pode terminar, e assim meus pais ajudaram pagando outro pedreiro. Mesmo assim faltou um pouco de dinheiro. Recorremos à minha avó e assim conseguimos terminar.

Durante esse tempo, além da reforma da casa estávamos também pagando o casamento, pois decidimos começar a pagar tudo um ano antes para não ficarmos tão endividados depois. Então eu engravidei. Sim, engravidei porque queríamos, porque achávamos que seria como brincar de boneca - quanta inocência!

Pra darmos conta de pagar tudo, o Fabio trabalhava com meu pai e eu trabalhava cuidando dos primos do Fabio de manhã e como vendedora de shopping das 16h às 22h - ou seja, minha jornada começava às 8h e terminava às 22h. Trabalhamos muito, muito mesmo, e passamos mais de um ano sem comprar absolutamente NADA para nós. Nosso foco era 100% a casa e o casamento.

Por sorte, ganhamos de presente quase todos os móveis e utensílios. Nossa casa era sala e cozinha conjugada, banheiro e um quarto. Não tínhamos cama e nem sofá rs.

Então passou o casamento e a Camille nasceu.

O nascimento de uma vida vem cheio de mistérios e novidades, nem sempre tão doce quanto nos contam. Acredito que uma nova alma chega pra trazer mudanças, e a transição sempre traz dor. A gente não se reconhece mais, nosso cabelo cai, nossas roupas não servem mais, eu até desaprendi a me maquiar. A gente não dorme, come a comida sempre fria e, além de todo o cansaço, sempre tem alguém com um conselho, pitaco e julgamento. Aí a gente precisa em meio a todo o caos, buscar força para ignorar os julgamentos e lutar pelo que acreditamos.

Ganhamos praticamente tudo para ela, mas ainda assim estava apertado demais. Quando ela tinha uns 4 meses a mãe do Fabio adoeceu e também teve que parar de trabalhar. Não tínhamos como pagar a cirurgia, então minha cunhada correu atrás no SUS e nos juntamos para comprar remédios e ajudar no que precisavam. Lembro que uma vez fomos lá e vimos que quase não tinha comida em casa (ambos trabalhavam sem carteira assinada, então quando ficaram doentes, ficaram também sem dinheiro nenhum). Eu e o Fábio, então, fizemos compras e levamos para eles. Claro que dessa forma faltou pra gente né? E meus pais então, compraram nossa comida naquele mês.

Um ano se passou e o Fabio recebeu uma proposta de emprego. Salário razoavelmente bom, uma empresa que ia abrir e prometia muito. Nossa vida começou a melhorar financeiramente. Resolvemos comprar um apartamento de 57m² na planta com entrega para 16 meses depois e entrada parcelada. Contratos assinados e por um erro da corretora o valor da entrada aumentou muuuuuito.

Tivemos, então, que pagar R$1.500,00 por mês de entrada por 16 meses. O Fabio ganhava R$ 2.400,00 e tudo apertou de novo. Nessa época eu estava começando a trabalhar como doula, com um projeto bacana e o Fabio me apoiou e me deixou com o tempo livre para que eu ficasse em casa com a Camille e desenvolvesse meu projeto. De R$ 2.400,00 pra R$ 1.500,00 não sobra muito né? E ainda tinha o carro com a prestação de R$300,00, portanto o salário era para comida e pronto.

Logo ofereceram ao Fabio a sociedade na empresa, já que os donos eram apenas investidores e não entendiam do ramo. A felicidade foi imensa pelo reconhecimento do trabalho e potencial dele. Ele começou a ganhar um pouco mais, não muito, já que ele ganharia no "lucro" da empresa, nessa mesma época pegamos as chaves do apartamento e a prestação diminuiu quase R$ 1.000,00. Foi um alívio muito grande e pudemos finalmente comprar roupas depois mais de um ano sem gastar em nada.

Apesar da boa renda, não estávamos felizes. Fabio trabalhava demais e estava sempre estressado, e apesar de todo o esforço o salário não aumentava, o lucro nunca veio e ele nunca foi sócio de fato, pois nada foi colocado em contrato. Então a "sociedade" não deu certo , foi dado ao Fabio um valor X pelo fim da sociedade, que era muito menor do que vocês possam imaginar... Mais frustração, decepção, tristeza.

Decidimos mudar de vida, tentar algo melhor para nós dois e para nossa filha. Pesquisamos muito e percebemos que para mudar precisaríamos colocar tudo a venda, e assim fizemos: carro, apartamento, móveis.

Estamos nos preparando para essa viagem DESDE 2014.

Nós não largamos tudo simplesmente para viajar o mundo. Temos um motivo, um propósito. Queremos encontrar um lar e estamos em busca disso. Nossas famílias não têm dinheiro e nós temos apenas o que conseguimos vender. Se tudo der errado, vamos ter que começar de novo, e eu não tenho medo disso porque sei que damos conta. Não somos como a maioria dos relatos que vocês veem por aí de gente que resolveu ter um ano sabático. Todo o dinheiro está contado. Temos o suficiente para emergências e nada mais.

Agora eu chego ao ponto em que queria chegar

Nossos pais ralaram pra caramba para nos criar e nós ralamos muito para ter nossas coisas e criar nossa filha, mas a diferença entre nós e outras pessoas que jogam seus relatos de "Como largar tudo e ser feliz" é que temos inteligência suficiente pra saber que recebemos muita ajuda e muitas oportunidades nos foram dadas. É verdade que nada cai do céu, que a gente tem que lutar pelo que quer, mas é importante reconhecer que pessoas lutam tanto quanto OU MAIS que nós e ainda assim não conseguem realizar seus sonhos.

Nossas famílias não têm dinheiro, mas nós ainda temos uma casa pra voltar caso precisemos. Ainda seremos acolhidos com amor e temos certeza que não faltará gente disposta a nos ajudar. Sim, porque somos pessoas de bem e trabalhadoras. Mas não é só isso que importa pra receber ajuda. Tem muita gente de bem e que trabalha pra caramba mas não tem as oportunidades que temos.

Meu cunhado provavelmente não teria uma formação se não existisse escola técnica publica e não recebesse ajuda de custo para se transportar até lá. E se ele não tivesse se formado, como estaria a família agora? Provavelmente trabalhando muito, como agora, mas ganhando muito menos, talvez ainda naquele mesmo ranchinho, e provavelmente Fabio também não teria tido a oportunidade de se formar.

Por isso eu entendo a gratidão dos meus sogros por ele. Ele quebrou o ciclo, ele deu o pontapé inicial. Por isso defendo os programas do governo, porque pessoas que precisam trabalhar desde criança não tem como competir com quem estuda em escolas boas e ainda pode pagar cursinho pré-vestibular.

No meu mundo ideal todo mundo realiza seus sonhos. No meu mundo ideal mulheres não sofrem violência doméstica, mulheres não são abandonadas diante de uma gravidez, mulheres não são obrigadas a ter um filho que não querem. Mulheres não são julgadas como boas ou más mães, mulheres não precisariam brigar por uma miséria de pensão enquanto o cara tá de bonitão na balada. No meu mundo ideal as mães teriam mais apoio, mais oportunidades e não precisariam ter que abandonar a faculdade, mas sabemos que não é assim no Brasil não é? Mulheres ganham menos, e mães têm mais dificuldade para conseguir emprego simplesmente por serem mães.

Eu lamento tanto que tantas pessoas tenham que trabalhar muito e com o que não gostam simplesmente para poder sobreviver. E lamento mais ainda que quando pessoas de bem e trabalhadoras ganham oportunidades apareçam discursinhos do tipo "não dê o peixe, ensine a pescar". Isso me irrita e muito. Ninguém consegue nada sem nenhuma ajuda, NINGUÉM. Pessoas falam isso porque gostam de dizer que tudo foi por esforço próprio, e não significa que não se esforcem mas direta ou indiretamente você sempre recebe ajuda. Indicação de emprego, bolsa na faculdade, subsídio dos pais e por aí vai.

Nosso país é desigual, tem gente passando fome e uma parte da população acredita que só é assim porque a outra parte não lutou o suficiente. Amo meu país, minha família, amigos, mas não quero viver em um lugar assim.

Nós definitivamente só estamos fazendo essa viagem porque temos um objetivo muito definido e principalmente, porque o lugar que talvez seja nosso lar tem passagens aéreas tão caras que sai mais barato viajar assim, pulando de galho em galho, parando em vários países.

A nossa ideia de fazer o blog é pra mostrar que não é preciso ter pai rico pra viajar, porque nós não temos. É preciso planejamento. Também não é preciso fazer uma viagem tão longa quanto a nossa. Queremos mostrar que é possível viajar gastando muito pouco.

Que tal nos seus dias de férias ir para uma cidade próxima e ficar numa casa legal com gente bacana compartilhando suas ideias, ajudando na manutenção da casa, sem precisar gastar com hospedagem e alimentação? Aprender a fazer tijolos, ensinar os filhos a colher frutas, a experimentar novos sabores. Dessa forma gastaria apenas com a passagem (que pode ser carro, trem, ônibus) e uma coisa ou outra que deseja comer na rua. Mas enquanto gasta com passagens, não está pagando as compras do mês, por exemplo.

Algumas pessoas têm a ideia de que viagem é aquela comum de ficar em hotel/hostel, caminhando horas na rua pra bater foto e gastar uma grana imensa em restaurantes e lojas. Nós não gostamos desse tipo de viagem, e se você é como a gente, que gosta mesmo é de uma boa conversa sem pressa e com uma cervejinha, experimente isso. Tem muitos lugares no Brasil dispostos a receber gente só pra ter companhia e alguma ajuda na casa, e é tão divertida essa troca. Faz bem pra alma.

Quando puderem, planejem, e vão. <3



Pai, mãe e irmão. 
Nós. 
Mãe e pai do Fabio.

Irmãos.
E nossos afilhados.

Eles não são heróis e não tem super poderes. São reais, com suas fraquezas, defeitos, mas tem o melhor jeito de acolher do mundo, sabem abraçar e chorar junto e tem corações que transborda amor e cuidado.