sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Não dê o peixe, ensine a pescar"... Quando a hipocrisia ganha voz.

Nos últimos dias têm aparecido na minha timeline um texto falando sobre as pessoas que não podem largar tudo para viajar o mundo e como isso os deixa chateados.

Decidi então compartilhar um pouco da nossa história de forma bem resumida e como tudo começou para depois mostrar meu ponto de vista.

Eu, Gabriela, sou do interior de Santa Catarina, uma cidadezinha chamada Capivari de Baixo. Meu avô teve uma das primeiras padarias da cidade, talvez a primeira. Posso dizer que a minha família viveu muito bem por muito tempo.
Meus pais também tinham sua própria padaria, mas decidiram vender depois de anos porque trabalhavam de domingo a domingo. Cidade do interior, todo mundo se conhece um pouco, a pessoa pagou em cheque e quando meu pai foi depositar viu que não tinha fundo e o cara já tinha sumido.

Sim, tudo foi perdido. Eles decidiram, então, se mudar para Floripa para recomeçar do zero e foi tudo muito sofrido. Na época eu não sabia, mas meus pais mandavam eu e meu irmão brincar com os vizinhos depois do almoço pra gente ter o que comer no café da tarde.

Antes disso meus pais tinham uma vida muito legal, e isso sem dúvidas foi fundamental para que tenham conseguido se reerguer em mais ou menos 2 anos.

Eles tinham muitos amigos que os ajudaram a conseguir emprego. Minha mãe foi trabalhar em um centro de estética e meu pai pegava o ônibus com chaves de fenda (e sei lá mais que tipo de chave rs) numa sacolinha plástica e se oferecia para consertar coisas, já que tinha formação de eletricista. Os amigos não ajudaram emprestando dinheiro, mas sim indicando e contratando os serviços, comprando os cosméticos da minha mãe, cortando o cabelo com ela. Gente amiga de verdade e que se dispunha a ajudar.

Anos depois, com a vida mais estabilizada, meu pai caiu da escada enquanto trabalhava e quebrou o joelho. Emergência, foi atendido rapidamente, mas precisava de cirurgia urgente e pelo SUS iria demorar muito.

(Quero deixar claro aqui minha completa admiração pelo SUS, que infelizmente não dá conta de tudo mas ainda assim é lindo e salva a vida de muitas pessoas.)

Meus pais não tinham como pagar cirurgia e a família, por mais que quisesse, não tinha como ajudar. Foi aí entraram os amigos novamente: eles pagaram a cirurgia do meu pai.

Depois da cirurgia ele deveria ficar de repouso, mas aí como entraria dinheiro em casa? Meu pai, então, convidou um amigo eletricista para trabalhar com ele, que já tinha uma clientela formada. Meu pai fazia a parte de contato com os clientes, financeiro e tudo mais e o amigo com a mão de obra. Funcionou por um tempo, até que o amigo decidiu trabalhar como autônomo e meu pai precisou voltar a trabalhar também fazendo instalações, mesmo com a proibição do médico (afinal, a gente precisava comer né?).

Nessa época eu já namorava o Fabio e havíamos decidido nos casar. O pai dele é pedreiro, a mãe empregada doméstica e o tempo de aperto que minha família passou não chega nem perto do que eles passaram.

Moravam em cinco pessoas num pedacinho de casa - um rancho, como eles falam - um quadradinho de menos de 25m² onde era cozinha e quarto de todos. Nada mais. Fabio trabalhou desde criança, assim como seus irmãos, fazendo entrega de salgadinhos de bicicleta, capinando e estudando. Posso dizer que eles tiveram sorte, pois apesar de todas as dificuldades, meus sogros sempre incentivaram muito os estudos.

Foi com o irmão mais velho do Fabio que a família começou a ter um pouco de conforto. Fez escola técnica pública e recebia ajuda de custo para transporte, e foi só por causa dessa ajuda de custo que ele pode estudar lá. Se formou, fez o projeto de uma casa e desse projeto, fez a casa que eles têm hoje. Com o dinheiro que ele ganhava ajudava a comprar comida, roupas para os irmãos e material para meu sogro fazer uma casa pra família. Hoje eles ainda passam perrengue, mas é não mais como antes.

Voltando à nossa história... Fabio e eu resolvemos casar (quanta burrice em dois jovens haha)
Não tínhamos dinheiro para nada, então meus pais, que tinham uma edícula no fundo do quintal, disseram que poderíamos reformar para morar ali. E foi o que fizemos. Fabio saiu da empresa onde trabalhava e com o FGTS conseguimos comprar algumas coisas para reforma da casa. Também ganhamos bastante coisa de amigos e família, como piso, telha, tinta e vidros. Meu sogro começou a reforma mas ficou doente e não pode terminar, e assim meus pais ajudaram pagando outro pedreiro. Mesmo assim faltou um pouco de dinheiro. Recorremos à minha avó e assim conseguimos terminar.

Durante esse tempo, além da reforma da casa estávamos também pagando o casamento, pois decidimos começar a pagar tudo um ano antes para não ficarmos tão endividados depois. Então eu engravidei. Sim, engravidei porque queríamos, porque achávamos que seria como brincar de boneca - quanta inocência!

Pra darmos conta de pagar tudo, o Fabio trabalhava com meu pai e eu trabalhava cuidando dos primos do Fabio de manhã e como vendedora de shopping das 16h às 22h - ou seja, minha jornada começava às 8h e terminava às 22h. Trabalhamos muito, muito mesmo, e passamos mais de um ano sem comprar absolutamente NADA para nós. Nosso foco era 100% a casa e o casamento.

Por sorte, ganhamos de presente quase todos os móveis e utensílios. Nossa casa era sala e cozinha conjugada, banheiro e um quarto. Não tínhamos cama e nem sofá rs.

Então passou o casamento e a Camille nasceu.

O nascimento de uma vida vem cheio de mistérios e novidades, nem sempre tão doce quanto nos contam. Acredito que uma nova alma chega pra trazer mudanças, e a transição sempre traz dor. A gente não se reconhece mais, nosso cabelo cai, nossas roupas não servem mais, eu até desaprendi a me maquiar. A gente não dorme, come a comida sempre fria e, além de todo o cansaço, sempre tem alguém com um conselho, pitaco e julgamento. Aí a gente precisa em meio a todo o caos, buscar força para ignorar os julgamentos e lutar pelo que acreditamos.

Ganhamos praticamente tudo para ela, mas ainda assim estava apertado demais. Quando ela tinha uns 4 meses a mãe do Fabio adoeceu e também teve que parar de trabalhar. Não tínhamos como pagar a cirurgia, então minha cunhada correu atrás no SUS e nos juntamos para comprar remédios e ajudar no que precisavam. Lembro que uma vez fomos lá e vimos que quase não tinha comida em casa (ambos trabalhavam sem carteira assinada, então quando ficaram doentes, ficaram também sem dinheiro nenhum). Eu e o Fábio, então, fizemos compras e levamos para eles. Claro que dessa forma faltou pra gente né? E meus pais então, compraram nossa comida naquele mês.

Um ano se passou e o Fabio recebeu uma proposta de emprego. Salário razoavelmente bom, uma empresa que ia abrir e prometia muito. Nossa vida começou a melhorar financeiramente. Resolvemos comprar um apartamento de 57m² na planta com entrega para 16 meses depois e entrada parcelada. Contratos assinados e por um erro da corretora o valor da entrada aumentou muuuuuito.

Tivemos, então, que pagar R$1.500,00 por mês de entrada por 16 meses. O Fabio ganhava R$ 2.400,00 e tudo apertou de novo. Nessa época eu estava começando a trabalhar como doula, com um projeto bacana e o Fabio me apoiou e me deixou com o tempo livre para que eu ficasse em casa com a Camille e desenvolvesse meu projeto. De R$ 2.400,00 pra R$ 1.500,00 não sobra muito né? E ainda tinha o carro com a prestação de R$300,00, portanto o salário era para comida e pronto.

Logo ofereceram ao Fabio a sociedade na empresa, já que os donos eram apenas investidores e não entendiam do ramo. A felicidade foi imensa pelo reconhecimento do trabalho e potencial dele. Ele começou a ganhar um pouco mais, não muito, já que ele ganharia no "lucro" da empresa, nessa mesma época pegamos as chaves do apartamento e a prestação diminuiu quase R$ 1.000,00. Foi um alívio muito grande e pudemos finalmente comprar roupas depois mais de um ano sem gastar em nada.

Apesar da boa renda, não estávamos felizes. Fabio trabalhava demais e estava sempre estressado, e apesar de todo o esforço o salário não aumentava, o lucro nunca veio e ele nunca foi sócio de fato, pois nada foi colocado em contrato. Então a "sociedade" não deu certo , foi dado ao Fabio um valor X pelo fim da sociedade, que era muito menor do que vocês possam imaginar... Mais frustração, decepção, tristeza.

Decidimos mudar de vida, tentar algo melhor para nós dois e para nossa filha. Pesquisamos muito e percebemos que para mudar precisaríamos colocar tudo a venda, e assim fizemos: carro, apartamento, móveis.

Estamos nos preparando para essa viagem DESDE 2014.

Nós não largamos tudo simplesmente para viajar o mundo. Temos um motivo, um propósito. Queremos encontrar um lar e estamos em busca disso. Nossas famílias não têm dinheiro e nós temos apenas o que conseguimos vender. Se tudo der errado, vamos ter que começar de novo, e eu não tenho medo disso porque sei que damos conta. Não somos como a maioria dos relatos que vocês veem por aí de gente que resolveu ter um ano sabático. Todo o dinheiro está contado. Temos o suficiente para emergências e nada mais.

Agora eu chego ao ponto em que queria chegar

Nossos pais ralaram pra caramba para nos criar e nós ralamos muito para ter nossas coisas e criar nossa filha, mas a diferença entre nós e outras pessoas que jogam seus relatos de "Como largar tudo e ser feliz" é que temos inteligência suficiente pra saber que recebemos muita ajuda e muitas oportunidades nos foram dadas. É verdade que nada cai do céu, que a gente tem que lutar pelo que quer, mas é importante reconhecer que pessoas lutam tanto quanto OU MAIS que nós e ainda assim não conseguem realizar seus sonhos.

Nossas famílias não têm dinheiro, mas nós ainda temos uma casa pra voltar caso precisemos. Ainda seremos acolhidos com amor e temos certeza que não faltará gente disposta a nos ajudar. Sim, porque somos pessoas de bem e trabalhadoras. Mas não é só isso que importa pra receber ajuda. Tem muita gente de bem e que trabalha pra caramba mas não tem as oportunidades que temos.

Meu cunhado provavelmente não teria uma formação se não existisse escola técnica publica e não recebesse ajuda de custo para se transportar até lá. E se ele não tivesse se formado, como estaria a família agora? Provavelmente trabalhando muito, como agora, mas ganhando muito menos, talvez ainda naquele mesmo ranchinho, e provavelmente Fabio também não teria tido a oportunidade de se formar.

Por isso eu entendo a gratidão dos meus sogros por ele. Ele quebrou o ciclo, ele deu o pontapé inicial. Por isso defendo os programas do governo, porque pessoas que precisam trabalhar desde criança não tem como competir com quem estuda em escolas boas e ainda pode pagar cursinho pré-vestibular.

No meu mundo ideal todo mundo realiza seus sonhos. No meu mundo ideal mulheres não sofrem violência doméstica, mulheres não são abandonadas diante de uma gravidez, mulheres não são obrigadas a ter um filho que não querem. Mulheres não são julgadas como boas ou más mães, mulheres não precisariam brigar por uma miséria de pensão enquanto o cara tá de bonitão na balada. No meu mundo ideal as mães teriam mais apoio, mais oportunidades e não precisariam ter que abandonar a faculdade, mas sabemos que não é assim no Brasil não é? Mulheres ganham menos, e mães têm mais dificuldade para conseguir emprego simplesmente por serem mães.

Eu lamento tanto que tantas pessoas tenham que trabalhar muito e com o que não gostam simplesmente para poder sobreviver. E lamento mais ainda que quando pessoas de bem e trabalhadoras ganham oportunidades apareçam discursinhos do tipo "não dê o peixe, ensine a pescar". Isso me irrita e muito. Ninguém consegue nada sem nenhuma ajuda, NINGUÉM. Pessoas falam isso porque gostam de dizer que tudo foi por esforço próprio, e não significa que não se esforcem mas direta ou indiretamente você sempre recebe ajuda. Indicação de emprego, bolsa na faculdade, subsídio dos pais e por aí vai.

Nosso país é desigual, tem gente passando fome e uma parte da população acredita que só é assim porque a outra parte não lutou o suficiente. Amo meu país, minha família, amigos, mas não quero viver em um lugar assim.

Nós definitivamente só estamos fazendo essa viagem porque temos um objetivo muito definido e principalmente, porque o lugar que talvez seja nosso lar tem passagens aéreas tão caras que sai mais barato viajar assim, pulando de galho em galho, parando em vários países.

A nossa ideia de fazer o blog é pra mostrar que não é preciso ter pai rico pra viajar, porque nós não temos. É preciso planejamento. Também não é preciso fazer uma viagem tão longa quanto a nossa. Queremos mostrar que é possível viajar gastando muito pouco.

Que tal nos seus dias de férias ir para uma cidade próxima e ficar numa casa legal com gente bacana compartilhando suas ideias, ajudando na manutenção da casa, sem precisar gastar com hospedagem e alimentação? Aprender a fazer tijolos, ensinar os filhos a colher frutas, a experimentar novos sabores. Dessa forma gastaria apenas com a passagem (que pode ser carro, trem, ônibus) e uma coisa ou outra que deseja comer na rua. Mas enquanto gasta com passagens, não está pagando as compras do mês, por exemplo.

Algumas pessoas têm a ideia de que viagem é aquela comum de ficar em hotel/hostel, caminhando horas na rua pra bater foto e gastar uma grana imensa em restaurantes e lojas. Nós não gostamos desse tipo de viagem, e se você é como a gente, que gosta mesmo é de uma boa conversa sem pressa e com uma cervejinha, experimente isso. Tem muitos lugares no Brasil dispostos a receber gente só pra ter companhia e alguma ajuda na casa, e é tão divertida essa troca. Faz bem pra alma.

Quando puderem, planejem, e vão. <3



Pai, mãe e irmão. 
Nós. 
Mãe e pai do Fabio.

Irmãos.
E nossos afilhados.
 Eles não são heróis e não tem super poderes. São reais, com suas fraquezas, defeitos, mas tem o melhor jeito de acolher do mundo, sabem abraçar e chorar junto e tem corações que transborda amor e cuidado.

"Não dê o peixe, ensine a pescar"... Quando a hipocrisia ganha voz.

Nos últimos dias têm aparecido na minha timeline um texto falando sobre as pessoas que não podem largar tudo para viajar o mundo e como isso os deixa chateados.

Decidi então compartilhar um pouco da nossa história de forma bem resumida e como tudo começou para depois mostrar meu ponto de vista.

Eu, Gabriela, sou do interior de Santa Catarina, uma cidadezinha chamada Capivari de Baixo. Meu avô teve uma das primeiras padarias da cidade, talvez a primeira. Posso dizer que a minha família viveu muito bem por muito tempo.
Meus pais também tinham sua própria padaria, mas decidiram vender depois de anos porque trabalhavam de domingo a domingo. Cidade do interior, todo mundo se conhece um pouco, a pessoa pagou em cheque e quando meu pai foi depositar viu que não tinha fundo e o cara já tinha sumido.

Sim, tudo foi perdido. Eles decidiram, então, se mudar para Floripa para recomeçar do zero e foi tudo muito sofrido. Na época eu não sabia, mas meus pais mandavam eu e meu irmão brincar com os vizinhos depois do almoço pra gente ter o que comer no café da tarde.

Antes disso meus pais tinham uma vida muito legal, e isso sem dúvidas foi fundamental para que tenham conseguido se reerguer em mais ou menos 2 anos.

Eles tinham muitos amigos que os ajudaram a conseguir emprego. Minha mãe foi trabalhar em um centro de estética e meu pai pegava o ônibus com chaves de fenda (e sei lá mais que tipo de chave rs) numa sacolinha plástica e se oferecia para consertar coisas, já que tinha formação de eletricista. Os amigos não ajudaram emprestando dinheiro, mas sim indicando e contratando os serviços, comprando os cosméticos da minha mãe, cortando o cabelo dela quando estava sem dinheiro. Gente amiga de verdade e que se dispunha a ajudar.

Anos depois, com a vida mais estabilizada, meu pai caiu da escada enquanto trabalhava e quebrou o joelho. Emergência, foi atendido rapidamente, mas precisava de cirurgia urgente e pelo SUS iria demorar muito.

(Quero deixar claro aqui minha completa admiração pelo SUS, que infelizmente não dá conta de tudo mas ainda assim é lindo e ajuda muitas pessoas.)

Meus pais não tinham como pagar cirurgia e a família, por mais que quisesse, não tinha como ajudar. Foi aí entraram os amigos novamente: eles pagaram a cirurgia do meu pai.

Depois da cirurgia ele deveria ficar de repouso, mas aí como entraria dinheiro em casa? Meu pai, então, convidou um amigo eletricista para trabalhar com ele ,que já tinha uma clientela formada. Meu pai fazia a parte de contato com os clientes, financeiro e tudo mais e o amigo com a mão de obra. Funcionou por um tempo, até que o amigo decidiu trabalhar como autônomo. e meu pai precisou voltar a trabalhar também fazendo instalações, mesmo com a proibição do médico (afinal, a gente precisava comer né?).

Nessa época eu já namorava o Fabio e havíamos decidido nos casar. O pai dele é pedreiro, a mãe empregada doméstica e o tempo de aperto que minha família passou não chega nem perto do que eles passaram.

Moravam em cinco pessoas num pedacinho de casa - um rancho, como eles falam - um quadradinho de menos de 25m² onde era cozinha e quarto de todos. Nada mais. Fabio trabalhou desde criança, assim como seus irmãos, fazendo entrega de salgadinhos de bicicleta, capinando e estudando. Posso dizer que eles tiveram sorte, pois apesar de todas as dificuldades, meus sogros sempre incentivaram muito os estudos.

Foi com o irmão mais velho do Fabio que a família começou a ter um pouco de conforto. Fez escola técnica pública e recebia ajuda de custo para transporte, e foi só por causa dessa ajuda de custo que ele pode estudar lá. Se formou, fez o projeto de uma casa e desse projeto, fez a casa que eles têm hoje. Com o dinheiro que ele ganhava ajudava a comprar comida, roupas para os irmãos e material para meu sogro fazer uma casa pra família. Hoje eles ainda passam perrengue, mas é não mais como antes.

Voltando à nossa história... Fabio e eu resolvemos casar (quanta burrice em dois jovens haha)
Não tínhamos dinheiro para nada, então meus pais, que tinham uma edícula no fundo do quintal, disseram que poderíamos reformar para morar ali. E foi o que fizemos. Fabio saiu da empresa onde trabalhava e com o FGTS conseguimos comprar algumas coisas para reforma da casa. Também ganhamos bastante coisa de amigos e família, como piso, telha, tinta e vidros. Meu sogro começou a reforma mas ficou doente e não pode terminar, e assim meus pais ajudaram pagando outro pedreiro. Mesmo assim faltou um pouco de dinheiro. Recorremos à minha avó e assim conseguimos terminar.

Durante esse tempo, além da reforma da casa estávamos também pagando o casamento, pois decidimos começar a pagar tudo um ano antes para não ficarmos tão endividados depois. Então eu engravidei. Sim, engravidei porque queríamos, porque achávamos que seria como brincar de boneca - quanta inocência!

Pra darmos conta de pagar tudo, o Fabio trabalhava com meu pai e eu trabalhava cuidando dos primos do Fabio de manhã e como vendedora de shopping das 16h às 22h - ou seja, minha jornada começava às 8h e terminava às 22h. Trabalhamos muito, muito mesmo, e passamos mais de um ano sem comprar absolutamente NADA para nós. Nosso foco era 100% a casa e o casamento.

Por sorte, ganhamos de presente quase todos os móveis e utensílios. Nossa casa era sala e cozinha conjugada, banheiro e um quarto. Não tínhamos cama e nem sofá rs.

Então passou o casamento e a Camille nasceu.

O nascimento de uma vida vem cheio de mistérios e novidades, nem sempre tão doce quanto nos contam. Acredito que uma nova alma chega pra trazer mudanças, e a transição sempre traz dor. A gente não se reconhece mais, nosso cabelo cai, nossas roupas não servem mais, eu até desaprendi a me maquiar. A gente não dorme, come a comida sempre fria e, além de todo o cansaço, sempre tem alguém com um conselho, pitaco e julgamento. Aí a gente precisa em meio a todo o caos, buscar força para ignorar os julgamentos e lutar pelo que acreditamos.

Ganhamos praticamente tudo para ela, mas ainda assim estava apertado demais. Quando ela tinha uns 4 meses a mãe do Fabio adoeceu e também teve que parar de trabalhar. Não tínhamos como pagar a cirurgia, então minha cunhada correu atrás no SUS e nos juntamos para comprar remédios e ajudar no que precisavam. Lembro que uma vez fomos lá e vimos que quase não tinha comida em casa (ambos trabalhavam sem carteira assinada, então quando ficaram doentes, ficaram também sem dinheiro nenhum). Eu e o Fábio, então, fizemos compras e levamos para eles. Claro que dessa forma faltou pra gente né? E meus pais então, compraram nossa comida naquele mês.

Um ano se passou e o Fabio recebeu uma proposta de emprego. Salário razoavelmente bom, uma empresa que ia abrir e prometia muito. Nossa vida começou a melhorar financeiramente. Resolvemos comprar um apartamento de 57m² na planta com entrega para 16 meses depois e entrada parcelada. Contratos assinados e por um erro da corretora o valor da entrada aumentou muuuuuito.

Tivemos, então, que pagar R$1.500,00 por mês de entrada por 16 meses. O Fabio ganhava R$ 2.400,00 e tudo apertou de novo. Nessa época eu estava começando a trabalhar como doula, com um projeto bacana e o Fabio me apoiou e me deixou com o tempo livre para que eu ficasse em casa com a Camille e desenvolvesse meu projeto. De R$ 2.400,00 pra R$ 1.500,00 não sobra muito né? E ainda tinha o carro com a prestação de R$300,00, portanto o salário era para comida e pronto.

Logo ofereceram ao Fabio a sociedade na empresa, já que os donos eram apenas investidores e não entendiam do ramo. A felicidade foi imensa pelo reconhecimento do trabalho e potencial dele. Ele começou a ganhar um pouco mais, não muito, já que ele ganharia no "lucro" da empresa, nessa mesma época pegamos as chaves do apartamento e a prestação diminuiu quase R$ 1.000,00. Foi um alívio muito grande e pudemos finalmente comprar roupas depois mais de um ano sem gastar em nada.

Apesar da boa renda, não estávamos felizes. Fabio trabalhava demais e estava sempre estressado, e apesar de todo o esforço o salário não aumentava, o lucro nunca veio e ele nunca foi sócio de fato, pois nada foi colocado em contrato. Então a "sociedade" não deu certo , foi dado ao Fabio um valor X pelo fim da sociedade, que era muito menor do que vocês possam imaginar... Mais frustração, decepção, tristeza.

Decidimos mudar de vida, tentar algo melhor para nós dois e para nossa filha. Pesquisamos muito e percebemos que para mudar precisaríamos colocar tudo a venda, e assim fizemos: carro, apartamento, móveis.

Estamos nos preparando para essa viagem DESDE 2014.

Nós não largamos tudo simplesmente para viajar o mundo. Temos um motivo, um propósito. Queremos encontrar um lar e estamos em busca disso. Nossas famílias não têm dinheiro e nós temos apenas o que conseguimos vender. Se tudo der errado, vamos ter que começar de novo, e eu não tenho medo disso porque sei que damos conta. Não somos como a maioria dos relatos que vocês veem por aí de gente que resolveu ter um ano sabático. Todo o dinheiro está contado. Temos o suficiente para emergências e nada mais.

Agora eu chego ao ponto em que queria chegar

Nossos pais ralaram pra caramba para nos criar e nós ralamos muito para ter nossas coisas e criar nossa filha, mas a diferença entre nós e outras pessoas que jogam seus relatos de "Como largar tudo e ser feliz" é que temos inteligência suficiente pra saber que recebemos muita ajuda e muitas oportunidades nos foram dadas. É verdade que nada cai do céu, que a gente tem que lutar pelo que quer, mas é importante reconhecer que pessoas lutam tanto quanto OU MAIS que nós e ainda assim não conseguem realizar seus sonhos.

Nossas famílias não têm dinheiro, mas nós ainda temos uma casa pra voltar caso precisemos. Ainda seremos acolhidos com amor e temos certeza que não faltará gente disposta a nos ajudar. Sim, porque somos pessoas de bem e trabalhadoras. Mas não é só isso que importa pra receber ajuda. Tem muita gente de bem e que trabalha pra caramba mas não tem as oportunidades que temos.

Meu cunhado provavelmente não teria uma formação se não existisse escola técnica publica e não recebesse ajuda de custo para se transportar até lá. E se ele não tivesse se formado, como estaria a família agora? Provavelmente trabalhando muito, como agora, mas ganhando muito menos, talvez ainda naquele mesmo ranchinho, e provavelmente Fabio também não teria tido a oportunidade de se formar.

Por isso eu entendo a gratidão dos meus sogros por ele. Ele quebrou o ciclo, ele deu o pontapé inicial. Por isso defendo os programas do governo, porque pessoas que precisam trabalhar desde criança não tem como competir com quem estuda em escolas boas e ainda pode pagar cursinho pré-vestibular.

No meu mundo ideal todo mundo realiza seus sonhos. No meu mundo ideal mulheres não sofrem violência doméstica, mulheres não são abandonadas diante de uma gravidez, mulheres não são obrigadas a ter um filho que não querem. Mulheres não são julgadas como boas ou más mães, mulheres não precisariam brigar por uma miséria de pensão enquanto o cara tá de bonitão na balada. No meu mundo ideal as mães teriam mais apoio, mais oportunidades e não precisariam ter que abandonar a faculdade, mas sabemos que não é assim no Brasil não é? Mulheres ganham menos, e mães têm mais dificuldade para conseguir emprego simplesmente por serem mães.

Eu lamento tanto que tantas pessoas tenham que trabalhar muito e com o que não gostam simplesmente para poder sobreviver. E lamento mais ainda que quando pessoas de bem e trabalhadoras ganham oportunidades apareçam discursinhos do tipo "não dê o peixe, ensine a pescar". Isso me irrita e muito. Ninguém consegue nada sem nenhuma ajuda, NINGUÉM. Pessoas falam isso porque gostam de dizer que tudo foi por esforço próprio, e não significa que não se esforcem mas direta ou indiretamente você sempre recebe ajuda. Indicação de emprego, bolsa na faculdade, subsídio dos pais e por aí vai.

Nosso país é desigual, tem gente passando fome e uma parte da população acredita que só é assim porque a outra parte não lutou o suficiente. Amo meu país, minha família, amigos, mas não quero viver em um lugar assim.

Nós definitivamente só estamos fazendo essa viagem porque temos um objetivo muito definido e principalmente, porque o lugar que talvez seja nosso lar tem passagens aéreas tão caras que sai mais barato viajar assim, pulando de galho em galho, parando em vários países.

A nossa ideia de fazer o blog é pra mostrar que não é preciso ter pai rico pra viajar, porque nós não temos. É preciso planejamento. Também não é preciso fazer uma viagem tão longa quanto a nossa. Queremos mostrar que é possível viajar gastando muito pouco.

Que tal nos seus dias de férias ir para uma cidade próxima e ficar numa casa legal com gente bacana compartilhando suas ideias, ajudando na manutenção da casa, sem precisar gastar com hospedagem e alimentação? Aprender a fazer tijolos, ensinar os filhos a colher frutas, a experimentar novos sabores. Dessa forma gastaria apenas com a passagem (que pode ser carro, trem, ônibus) e uma coisa ou outra que deseja comer na rua. Mas enquanto gasta com passagens, não está pagando as compras do mês, por exemplo.

Algumas pessoas têm a ideia de que viagem é aquela comum de ficar em hotel/hostel, caminhando horas na rua pra bater foto e gastar uma grana imensa em restaurantes e lojas. Nós não gostamos desse tipo de viagem, e se você é como a gente, que gosta mesmo é de uma boa conversa sem pressa e com uma cervejinha, experimente isso. Tem muitos lugares no Brasil dispostos a receber gente só pra ter companhia e alguma ajuda na casa, e é tão divertida essa troca. Faz bem pra alma.

Quando puderem, planejem, e vão. <3



Pai, mãe e irmão. 
Nós. 
Mãe e pai do Fabio.

Irmãos.
E nossos afilhados.

Eles não são heróis e não tem super poderes. São reais, com suas fraquezas, defeitos, mas tem o melhor jeito de acolher do mundo, sabem abraçar e chorar junto e tem corações que transborda amor e cuidado.