quarta-feira, 4 de maio de 2016

El Recoveco

El Recoveco significa um lugar escondido, difícil de achar.
Nosso dia começou cedinho e estávamos felizes da vida por ter visto Jane e o pequeno Pablo. Todo o nervosismo passou naquela hora, nos cumprimentamos e Jane perguntou que idioma falávamos. Ela é alemã e adivinha só? Fala alemão (rsrs), inglês e espanhol. Optamos, é claro, por espanhol só porque gostamos muito do idioma haha.

Foi um pouco difícil no começo, mesmo com eles falando devagar me parecia rápido. Eu que sou toda desencanada travei e o Fabio, que é mais inseguro, saiu falando espanhol e me deixou de boca aberta. Todo mundo acha que espanhol é fácil pra quem fala português e, bom, pode até ser quando você fala como turista pedindo informação e opções de pratos para o almoço, mas vai tentar falar sobre plantio, colheita, limpeza, ecologia e política para ver. Não é tão simples como parece. Jane também tinha dificuldade com algumas coisas, então na hora do aperto, quando ela não entendia meu portunhol, eu falava ou soletrava em inglês. Ainda assim, nos primeiros dias, eu fiquei quase muda rsrsr.

Na ecovila vivem apenas quatro moradores atualmente: Mauri e Jane, que são um casal, seu filho Pablito e Rayo. Foi ele que nos ofereceu a opção de trabalharmos todos juntos ou ele com o Fabio (vou deixar pra ele mesmo relatar essa experiência) e eu com a Jane. Preferi a segunda opção porque seria mais fácil, já que estava com a Cami.

No primeiro dia eles nos mostraram tudo. A ecovila é imensa, tem cinco casas, quatro delas compostas apenas de quarto e cozinha e a casa principal, onde todos fazem as refeições e se encontram para ouvir música e conversar.

Casa principal


Fogão solar
Nossa casinha
A ideia é criar uma comunidade e se alimentar apenas daquilo que plantam. Eles têm milho, feijão, arroz, abóboras de todos os tipos imagináveis, batata, repolho, tomate, cebola, alho, pimenta, pêssego, maçã, uva, girassol, colmeias de abelha para mel, amendoim, erva mate e, é claro, a erva do Mujica - cujo plantio e uso, pra deixar claro, é legalizado no Uruguai. Segundo eles, acredito que por medo de julgamento da nossa parte, caiu uma semente dela e nasceu! Logo lembramos da música do D2 e Bezerra: - Meu vizinho jogou uma semente no quintal, de repente brotou um tremendo matagal. hahaha. 

Colhendo uva
Apesar de colher as batatas da terra... rsrs
Uma bacia suja de mel = felicidade!
Marijuana
O dia a dia era muito gostoso. Comecei arrumando a casa principal, que estava um caos (e olha que não sou a pessoa mais organizada do mundo!). Tirei tudo do armário da cozinha, limpei com água e vinagre, lavei toda a louça - porque se tem uma coisa que eu sou encanada é a limpeza da louça e lá tem muita aranha e, consequentemente, muita teia. Ajudei Jane com o almoço e fechei o primeiro dia de trabalho, 

O ALMOÇO

Foi o pior almoço das nossas vidas, outro momento que queríamos sair correndo dali! Na panela, muita água fervendo e cozinhando a abóbora; até aí, tudo bem, adoro abóbora, mas eis que de repente vejo Jane jogando na panela um pote de aveia! Ficou um pirão de aveia com abóbora! Vocês não têm noção do que era aquilo, parecia mistura de cola com água e trigo. Lembrava um pirão d'água sem sal que minha tia avó me fazia comer, já que era tudo branco. Por sorte, tinha também salada crua e azeite de oliva na mesa, foi o que me salvou, mas óh, foi punk. O Fabio, coitado, odiava abóbora, aveia, salada e azeite, ou seja, se ferrou em todos os sentidos haha.

Aí vocês pensam "ah, eles devem ter comido super pouco, devem ter ficado com fome". Olha, eu adoraria ter ficado com um pouco de fome nesse dia. No Uruguai assim como na Argentina eles têm um costume lindo mas que ferrou com a gente: quem faz a comida serve os pratos, e eles colocaram muita comida pra gente. O Fabio foi o último a terminar e, de repente, Jane pergunta: - Você não gostou Fabio? E ele com toda educação responde: - Está ótimo, é que eu como muito devagar mesmo hahahahahaha.

Acha que acabou a parte ruim? Sobrou comida e a noite tivemos que comer de novo, mas dessa vez enquanto Jane aqueceu o panelão de pirão ela colocou pimenta e aí, pra mim, estava ótimo e pro Fabio ficou ainda pior... Sério, pra mim tava ruim, mas olhar o Fabio dava dó. A Camille comeu pirão e tomate rsrsrs.

Depois do almoço de boas vindas, limpamos a cozinha, preparamos uns biscoitos para assar e fomos para o rio tomar banho e assar os biscoitos no forno de barro à beira do rio. Uma delícia aquela vibe! Pra não ser injusta, os biscoitos estavam divinos.

Rayo usando o forno de barro
A diversão de todas as tardes
Rio de água cristalina e com muitos peixinhos

Nos próximos dias, conforme a Camille pedia, fazíamos arroz, macarrão ou feijão, sempre com muita salada. Ah, e o feijão lá é ao dente e sem caldo... Foi difícil viu rsrs. 

E assim foram os dias seguintes. Tudo era muito calmo, começávamos a trabalhar por volta das 8h30, a Cami esteve comigo o tempo todo eu sempre podia parar para dar atenção, mas normalmente ela estava incluída nas minhas atividades - ela até moeu milho.

Moendo milho
Como começávamos a trabalhar tarde, quase sempre trabalhávamos um pouco de manhã, descansávamos após o almoço e retornávamos no fim da tarde para mais alguma coisa.

Lá só tínhamos energia solar, ou seja, nada de refrigerador ou microondas. Tinha apenas uma tomadinha para carregar os celulares, um banheiro comum com chuveiro aquecido a lenha. Eles explicaram no primeiro dia o que fazer pra aquecer, mas não entendemos nada - e como sempre tinha escorpião no banheiro não fizemos questão de aprender -, então o banho era no rio mesmo e era frio demais mesmo com o sol, pois as árvores faziam sombra. Sinceramente, agora bate uma saudade daquele rio e da tranquilidade do lugar... ah, como o banho era no rio seria um crime usar química, então abolimos shampoo e sabonete, usamos apenas uma vez no tempo que estivemos lá e nossos cabelos e pele ficaram muito mais bonitos, tanto que iniciei o no-poo.

Lavando os cabelos - sem shampoo.
Na primeira semana faltou água, estava há mais de quarenta dias sem chover no país e nos perguntaram se queríamos ficar ali mesmo sem água. Pensamos que seria interessante vivenciar a rotina deles com tudo que tem direito (rs), mas confesso que foi bem difícil. Pegava água no poço, que era puríssima para consumo, para lavar louça e roupas. Cansativo, mas nem era a pior parte: pra mim o pior e inimaginável era encher uma bacia de água e lavar a louça do dia todo ali, mesmo com a água já suja. Mas é assim em muitos lugares, inclusive na Austrália, onde se enche a pia e usa aquela água. Pode parecer que não, mas fica limpo de verdade viu?

Também tivemos que experimentar o baño seco, que é banheiro seco... Tipo uma patente, mas não é um buraco no chão, é um banheiro de verdade, com toda uma questão ecológica envolvida. Esse banheiro ficava em um penhasco, todo limpinho e bonitinho com azulejo e vaso sanitário. A sujeira ia pra bem longe e não ficava com cheiro, mas no começo era estranho, pensava nas minhas avós, só faltava o sabugo haha.

Banheiro seco
Sentíamos como se estivéssemos na casa de amigos e ajudávamos a manter a ordem das coisas, apenas isso. Eu passei mal duas vezes e me liberaram do trabalho sem eu pedir.

Apenas uma coisa nos deixou incomodados, mas foi um pouco antes de irmos embora.
Toda semana Mauri e Jane iam na cidade comprar as poucas coisas que faltavam e pedimos para comprarem biscoito água e sal e doce de leite. Demos um valor que sabíamos que ia sobrar e eles não nos deram o troco, disseram que compraram outras coisas... Enfim, não era um valor alto e não nos importaríamos se eles tivessem pedido, mas achamos de muito mal gosto. Mas no geral, tudo foi ótimo e vamos continuar viajando dessa forma que, para nós, além de ser muito mais barata nos permite trocar experiências, conhecer a verdadeira cultura local, ouvir música boa e jogar conversa fora. É muito rico e quem não viaja assim dificilmente vivencia isso,

Amamos conhecer Jane e ouvir o relato de seu parto que aconteceu na Alemanha! Ela narrou suas histórias de viagens pelo mundo, igual a nossa, e foi assim, inclusive, que ela conheceu Mauri, como voluntária em El Recoveco,
Mauri também foi um bom anfitrião, apesar de passarmos pouco tempo juntos. Rayo foi quem ficou mais tempo conosco, sempre prestativo, brincando com a Cami, nos ensinando a acertar a pronúncia e tocando violão.

Ah, quem nos conhece sabe que sempre chamamos a Camille de Caca e lá percebemos que eles só chamavam ela de Cami. Quando nos demos conta que lá caca é coco decidimos abolir pra evitar futuros traumas rsrs.

Espero que curtam nosso relato, em breve o Fabio vem contar sobre o trabalho dele e a difícil adaptação com a alimentação vegana. Beijos, beijos e beijos.

Nossa companheira de quarto




Voltando à Montevideo para seguir para Colônia del Sacramento